terça-feira, 9 de agosto de 2011

AS  FORMAS DE VIDA NAS QUAIS ESTÃO CONSTITUÍDAS NOSSAS RELAÇÕES, COLOCAM-NOS VALORES QUE PARECEM NOS TRAZER UMA ESPÉCIE DE "SALVAÇÃO", UM MODO DE SER ONDE A CULTURA DO "BELO" E DO "PERFEITO" LEVAM O HOMEM A BUSCAR VALORES VAZIOS DE SENTIDO QUE O AFASTAM DA ESSENCIALIDADE DE SEU SER, E O TORNAM PRISIONEIRO DE UM SISTEMA CULTURAL QUE APRISIONA SUA HUMANIDADE E O TRANSFORMA NUM SER VAZIO PARA SI MESMO!


ESTE TEXTO FOI ESCRITO NA CIDADE DE PORTO ALEGRE:


O CHEIRO DA VIDA

A vida na cidade é a síntese das vidas da cidade. Ela contempla na mesma aurora e no mesmo pôr-do-sol, no mesmo rio e no mesmo céu, os caminhos de asfalto que levam aos luxuosos prédios onde a vida “por fora” é confortável e segura, tem beleza fácil porque é fácil gastar as notas de valor, tem sensação de poder e aspecto de saciedade, sentimento de satisfação porque o mundo se completa nas coisas belas, brilhantes, com luzes. O som é fino, o horizonte é fútil.
Seguindo o curso do rio, o peregrino é levado a casas menos luxuosas, onde a beleza das paredes castelares é trocada por papelões, latas e madeiras velhas. Nos rostos também falta o sorriso, mas não é por arrogância, é por tristeza, dor, que é física, mental e moral. O corpo de quem mora no castelo vale pelo que veste, pelo nome do que veste, mais ao longe no rio o valor é quanto se vale para garantir uma refeição. Para dentro do labirinto cinza, encontramos os moradores dos grandes viadutos, eles são “importantes”, dormem em lugares que tem nome de gente famosa, podem contemplar as estrelas todas as noites e contar a vida que começa depois das 20, quando ligamos um aparelho que nos conecta com o mundo, “que mundo?” Certamente não é dos feirantes ali no cais do Guaíba, onde a banana tem cheiro, o pêssego tem gosto verdadeiro, a batata vale o agrado do freguês e o tomate cheira como tomate, livre da prisão dos plásticos e do isopor.
No coração da história da cidade de “todos os gaúchos”, está o grande “shopping”, onde o cheiro de peixe, do salame, da erva, das frutas, do pastel, dão aroma ao ambiente onde ecoam as vozes que compram, as que vendem, as que fazem a glamorosa propaganda. Gente humana, homens, mulheres, histórias, o que sentem, o que sofrem, por que sorriem, por porque choram, por que suas casas são tão diferentes, seus sorrisos tem tantos sons? Por que mensagens tão diversas, por que seus corpos escrevem em letras tão diferentes? Seus sonhos, para onde será que eles vão? Será que o menino índio que tocava na sua flauta a canção da paz em meio as árvores da praça da alfândega saberia responder? Talvez seu discriminado coração seja mais sábio e sensível do que aqueles decorados com gravatas. São vidas humanas que se entrecruzam nestas ruas, existências são vividas, páginas em branco são preenchidas. A cada dia um novo jardim do Éden é criado na cidade, suas flores são para alegrar corações apaixonados, ou decorar sepulturas nos cemitérios escuros?


Porto alegre – centro (mercado público).    

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